É preciso esclarecer um ponto importantíssimo na rede de desafios em que o mude.nu se tornou. Você é capaz de encarar qualquer desafio. E existem desafios que não podem ser feitos por você.

Paradoxal, porém verdadeiro.

Dizer que você é capaz de encarar qualquer desafio não significa que você pode fazer, ser ou ter o que quiser, diferente do que afirmam os livros de auto-ajuda. Se eu disser que você, aos 40 anos, pode se tornar jogador de futebol profissional e disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira, não estarei fazendo nada além de enganá-lo.

Quando dizemos que você é capaz de encarar qualquer desafio, estamos afirmando que você pode assumir uma identidade hábil para realizá-lo.

Por exemplo, você acredita que o Gabriel Medina nasceu surfista ou apenas decidiu assumir essa identidade a partir de determinado momento?

Você ficou com uma certa inveja ao ver o Matheus Zeuch saltar de paraquedas? Pois no começo deste ano, ele nunca havia feito isso. Um dia ele saltou, assumiu uma identidade de “um aventureiro”.

Você não pode encarar qualquer desafio

Surfista em desafio na praia

Um dia eu peguei uma prancha e entrei no mar. No outro dia, me chamavam de surfista.

Com a sua atual identidade, você pode encarar alguns desafios, outros não.

Se você diz a si mesmo que tem medo de altura, dificilmente vai saltar de um avião a três mil metros de altitude. Para isso, antes é preciso uma mudança interior.

Parece algo distante, mas fazemos isso o tempo todo. Temos várias identidades: de filho, de pai (para alguns), de estudante, de empregado, de marido. Quando você está sozinho conversando com amigos você é igual a quando está com a namorada ao lado? Ou quando está em uma igreja?

O problema é que às vezes (quase sempre) ficamos presos a determinadas identidades, como se aquilo realmente fôssemos nós. E aí nos sentimos incapazes de faze determinadas coisas que não se encaixam com aquela identidade criada (ou aprendida, tanto faz).

Sempre defendemos nossas identidades, por mais que elas sejam ilógicas. Perceba como um corintiano defende seu time. Ou como um vegano defende seu modo de vida.

Libertando-se através dos desafios

Digamos que exista um desafio Aprender a Surfar.

Você é, em sua identidade principal, um jovem nerd, paulistano, com aquele bronze de escritório, que quase nunca vê o mar. Dá para aprender a surfar lendo um artigo “Como surfar” pela internet, jogando um game de surf no Xbox e tendo aulas em uma escola de surfe na Avenida Paulista?

Para encarar esse desafio, você teria que trocar sua identidade. Vai ter que descer para o litoral. Vai ter que pegar uma prancha. Vai ter que cair no mar.

Agora digamos que você comece a fazer isso. E comece a andar com outros surfistas. E comece a se vestir, falar como um surfista. E continue pegando onda.

Dentro de uns 3 meses, quem é você? Um jovem e pálido nerd ou o mais novo surfista do pedaço? Ou os dois?

A resposta correta é que você não é nenhum deles. Daqui a pouco, você mudará os hábitos, a identidade pode morrer, e você continua.

Resumindo o papo: não deixe de encarar qualquer desafio por acreditar que isso não é para você, que não é a sua praia. Se você tem tesão em fazer o que está sendo proposto, siga em frente. Simplesmente pule do avião e, como num passe de mágica, você se tornará “um aventureiro”.

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3 Comentários

  1. Aquilo que é focalizado se expande.

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  2. Gostaria de ler mais sobre o assunto desse trecho: “O problema é que às vezes (quase sempre) ficamos presos a determinadas identidades, como se aquilo realmente fôssemos nós. E aí nos sentimos incapazes de fazer determinadas coisas que não se encaixam com aquela identidade criada (ou aprendida, tanto faz).”

    Responder
  3. O desafio do surf me libertou.
    Curti o texto! Parabéns.
    Começei a pegar umas ondas a mais ou menos um ano. Nunca tinha surfado,e sei lá, depois de uma separação e uma internação da minha Ex no sanatório na virada do ano, foi uma avalanche de coisas ruins. Ai eu me vi em ubatuba, onde alugamos umas pranchas e na praia de lagoinha subi a primeira vez na onda. A partir dali, algo mudou dentro de mim. Fiquei fissurado e fui fazer uma aula em Itamambuca. Lá o instrutor Cebola viu minha empolgação e na primeira aula, me ensinou a dropar uma onda. Esse cara fechou a conexão com o mar na minha cabeça. Até então pra mim, era muita pose, muita moda e não tinha sentido o que era o surf de verdade. Aquele friozinho na barriga quando você está dropando a onda, pensando se vai conseguir finalizar, aquela sensação de paz, olhando o horizonte e pensando apenas na proxima onda, conseguindo focalizar só oque é bom na sua vida, mudou minha forma de ver o mundo!
    Essa forma deste eporte de interagir com a natureza de forma tão crucial, aonde vc mergulha no mar e pode dar de cara com uma tartaruga enorme, você pode dar um joelhinho e embaixo do mar sentir aquela onda passando em seus cabelos, sentir aquela energia toda da vida te irradiando felicidade, faz você ter uma nova visão de sua vida.
    Enfim, tudo isso me fez comprar uma prancha uma semana depois. rs Hoje surfo ao menos uma vez a cada duas semanas.
    Eu me sinto uma mistura de tudo que ja vivi, as pessoas de São paulo brincam e me chamam de surfista. As pessoas da Baixada brincam e me chamam de nerd. Outras de roqueiro maluco, etc. E QUEM EU SOU? Eu sou um nerd, roqueiro, surfista, violeiro meia boca, e uma soma de todas as aventuras que eu encarei e sobrevivi. Mas apenas quando cheguei ao surf que eu pude realmente vislumbrar isso. Perceber que não somos apenas aquela imagem que projetamos nas pessoas. A partir daí, eu criei minha propria identidade, não me preocupei mais em estar enquadrado no “nipe” da galera. Consegui me libertar e ser intenso em tudo que amo sem perder tanto tempo fazendo força pra provar isso pra alguém…

    E até hoje eu falo. Eu não sou um surfista ainda. Tenho um long, as vezes eu pego uma onda boa e consigo brincar. Mas eu acho que ainda nem tenho ideia do que é realmente o surf. Eu simplesmente pego umas ondas. E olhe lá…
    Mas como você disse, o importante é isso que nós somos no final, aventureiros, trabalhando intensamente para cada proximo fim de semana de aventura e descoberta de si! Seja em um casamento, em um esporte radical, ou em uma maldita planilha de excel em um escritório, o importante é o desafio de nos superarmos todo dia!

    Abraço!

    ALS

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