Anteontem eu acordei no dia ideal.

O relógio nem batia as seis da manhã e eu levantei devagar para não acordar minha esposa.

No friozinho de início da manhã em Brasília, aproveitei para moer eu mesmo o café e passar lentamente no filtro. Café de verdade, daqueles que nem precisa de açúcar para sentir a doçura do grão.

Depois coloquei minha almofadinha no chão virada para a parede e meditei por 15 minutos, focado o máximo de tempo no ar entrando e saindo das narinas.

Troquei de roupa e fui para a academia. Alonguei direitinho, fiz minha série toda e voltei para casa para tomar um banho frio e começar o dia de verdade.

Minha esposa já havia acordado, então fiz umas tapiocas e comemos juntos. Aproveitei para tomar um suco batido com maça verde e algumas verduras.

Na sequência, lavei as louças.

Enquanto se lava a louça, deve-se somente lavar a louça.

O que quer dizer: enquanto se está lavando louça, deve-se estar totalmente cônscio do fato de que se está lavando louça.

A princípio pode parecer uma tolice: por que dar tanta importância a coisa tão simples?

Se, ao lavarmos a louça, ficarmos com o pensamento voltado apenas para a xícara de chá que saborearemos a seguir, a tarefa se torna um fardo. Procuraremos automaticamente limpar a louça às pressas para nos livrar da chateação e não estaremos “lavando a louça por lavá-la”.

E mais, nós não estaremos vivos durante o tempo em que a estivermos lavando.

Estaremos na verdade sendo incapazes de reconhecer o milagre da vida enquanto à beira da pia. E se não somos capazes de lavar a louça por lavar, é pouco provável igualmente que seremos capazes de saborear o chá a seguir.

Pois ao tomar o chá, estaremos com o pensamento voltado para outras coisas, inconscientes do fato de que temos uma xícara nas mãos. Dessa forma estaremos sendo sugados para fora da realidade presente – e incapazes de viver em totalidade um minuto sequer. (Thich Nhât Hanh)

Parti para o trabalho com quase uma hora de antecedência. No carro, coloquei para tocar Dusty Springfield, dando uma cara de anos 60 para o meu dia.

Como cheguei cedo ao trabalho, encontrei uma vaga boa no estacionamento e comecei a trabalhar antes de a sala ficar muito agitada.

Abri minha lista de coisas a fazer, escolhi as três tarefas mais importantes do dia e já matei a primeira antes mesmo de checar e-mail ou abrir qualquer portal de notícia ou rede social.

Na hora do almoço, comi até ficar satisfeito carne, ovo e uma bela salada de verduras, brócolis e legumes.

No final da tarde, com o trabalho já realizado, dei uma olhada nos assuntos da faculdade e parti para a aula já concentrado, aproveitando tudo o que o professor passava.

Cheguei em casa, tirei o lixo, fiz 20 minutos de yoga, tomei um banho quente…

O dia terminou com um bom livro (estou lendo O Valor do Amanhã, de Eduardo Giannetti) e o sono veio rápido, já que eu havia acordado cedo.

O dia real

Foto: Unsplash

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Anteontem eu acordei com o despertador do celular tocando já pela terceira vez na função soneca.

Finalmente levantei, mas já que estava com o celular na mão aproveitei para checar os e-mails. Minha vista ainda estava meio embaçada, mas mesmo assim me peguei lendo umas notícias na Globo.com.

Foi quando me toquei da hora avançada. Liguei a TV no Bom Dia Brasil enquanto misturava um café solúvel com leite em pó na cozinha.

Mandei o café para dentro e tomei banho correndo. Menti para mim mesmo que não daria tempo nem de fazer os cinco minutos de meditação, quanto mais ir para academia.

Depois pulei no terno e parti para o trabalho, já atrasado, tentando escutar pela CBN as notícias do trânsito, entre uma desgraça e outra que o repórter relatava.

O estacionamento já estava lotado e parei a quase um quilômetro da entrada do trabalho. Fui andando a passos largos até a sala para tentar ganhar uns minutinhos no ponto eletrônico.

Acho que perdi bem uma meia hora abrindo de novo o meu e-mail, vendo algumas notícias, procrastinando antes de começar de fato a trabalhar.

Na hora do almoço, estava com preguiça de sair e mandei entregar um Cheese Egg Frango que comi na mesa do trabalho mesmo, acompanhado de uma latinha de Coca-cola. Da vermelha, claro.

Isso me fez ficar com fome já no meio da tarde, o que me deixou impaciente, o que piorou quando lembrei que não havia feito o trabalho de Direito Penal…

Cheguei à faculdade já morrendo de sono e olhando no relógio a todo tempo para ver quanto tempo faltava. Enquanto o professor falava algo sobre a diferença entre Rufião e Proxeneta, eu olhava no celular repetidamente a Globo.com, o UOL e a opinião do PVC sobre o Brasileirão no site da ESPN.

Fui para casa tão cansado que tive até preguiça de tomar banho. Deitei e liguei a TV para ver se desligava um pouco da correria, mas acabei assistindo desde o fim da novela até o comecinho do Jornal da Globo.

Já estava tão tarde que imaginei que o meu projeto de acordar cedo no dia seguinte para dar tempo de meditar e ir para academia antes do trabalho já havia arruinado de antemão…

Qual dos dois é verdade?

Foto: Unsplash

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Ambos, infelizmente.

A minha ideia é me aproximar cada vez mais do primeiro e me afastar do segundo, mas parece que nem sempre estou no comando.

O que tem me ajudado muito a ficar mais perto do Dia Ideal é um aplicativo de controle de hábitos que estou usando, o Habit List.

Uma coisa que já percebi é que a Teoria das Janelas Quebradas se aplica também aos nossos hábitos de mudança.

Por exemplo, eu consegui incrivelmente no começo de abril zerar minha lista de hábitos por 20 dias seguidos. Depois, eu fiz uma viagem e acabei deixando de fazer alguma coisas (comer direito, meditar, exercitar) e tudo acabou desmoronando.

Quando voltei, fui naquela de “amanhã eu retomo” por quase um mês… e aí todo o ganho que eu tinha obtido naqueles 20 dias seguidos foi por água abaixo.

Certa vez ouvi de um professor de artes marciais que você consegue saber o foco e a disciplina dos alunos só pela maneira como eles deixam os sapatos antes de entrar no tatame. Sapatos organizados e bem posicionados refletem uma mente clara, enquanto sapatos jogados de qualquer jeito são fruto de uma mente bagunçada.

O mesmo serve para a maneira como organizamos nossas casas, nossas listas de coisas a fazer, etc. Não dá para dizer o que vem primeiro, se a galinha ou o ovo, mas me parece que isso é indiferente: você pode (e deve) trabalhar os dois ao mesmo tempo.

É isso.

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Publicado por Walmar Andrade

Criador do Mude.nu, Walmar Andrade é bacharel em Comunicação Social, com extensão em jornalismo on-line (UFPE), MBA em Planejamento, Gestão e Marketing Digital (FECAP-SP) e Master en Comunicación Empresarial (INSA-Barcelona). Escreve sobre comunicação e marketing digital no blog Fator W.

4 Comentários

  1. Nem tudo na vida é perfeito né :D Um dia simplesmente ideal seria muito chato, pelo menos ao meu ponto de vista. Mas uma mescla dos dois, “perfeito e desafiador” daria e dar bem mais emoção a vida!

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  2. Um dos melhores textos que já li aqui.
    Fantástico.
    Muito obrigada!

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  3. Oi Walmar,

    Também tenho experiências parecidas em relação ao dia real e dia ideal. Ao ler seus relatos da para perceber claramente como uma “coisa leva a outra” um grande circulo vicioso.

    Você disse em outro artigo que a atividade mais importante que incorporou na sua vida foi a meditação. Entre tantos feitos, porque algo aparentemente simples foi tao importante ?

    abraços !

    Responder

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