Há dois anos, publiquei aqui sobre a minha primeira experiência em um centro budista. E como estou levando as coisas em um ritmo muito devagar, tive ontem a segunda experiência de tentar meditar em grupo.

Devo confessar que sou um inconstante no hábito da meditação. Engato uns quarenta dias seguidos de prática, para depois ficar uns sessenta sem nem pegar a almofada. Mas sempre estou acostumado a fazer isso sozinho.

Ontem à noite fui à prática de Introdução à Meditação Silenciosa no CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodsatva) em Brasília.

Sim, mesmo lendo sobre o assunto desde 2008 e praticando inconstantemente, ainda me considero um iniciante que precisa de muita introdução para compreender melhor tanto a técnica quanto o propósito.

Desta vez, no entanto, me pareceu que boa parte das pessoas que lá estavam enfrentavam dificuldades que já não me afligem mais. Deu para notar que alguns se afligiam por não conseguirem focar em um único ponto durante muito tempo. Outros não conseguiam ficar na posição. E mais alguns se incomodavam com os mosquitos, com os barulhos externos, com o ventilador…

Essa movimentação ao meu redor acabou prejudicando a minha própria prática, já fraca por natureza. Embora imóvel, comecei a perceber as pessoas se movendo ao meu lado, quando elas se coçavam, quando tentavam espantar um mosquito.

Ao final, comecei a pensar o que era melhor: meditar sozinho ou em grupo?

Meditar sozinho ou em grupo?

Uma das bases do budismo é procurar apoio em outras pessoas para avançar no caminho. Inclusive, a comunidade é uma das chamadas Três Joias, que são as três coisas nas quais os budistas procuram orientação, num processo conhecido como tomar refúgio.

As Três Joias são:

  1. O Buda, que, dependendo da interpretação, pode significar o Buda Histórico (Siddhartha Gautama) ou a Natureza Búdica que existe em todas as pessoas.
  2. O Dharma, que são os ensinamentos do Budismo.
  3. A Sangha, que são as pessoas que praticam o Dharma e, num sentido mais amplo, a comunidade budista como um todo.

Inicialmente, pensando prática e egoistamente, cheguei a conclusão de que meditar sozinho era muito melhor. Você controla o ambiente, não tem ninguém para lhe distrair, usa a sua almofada etc.

Mas um segundo depois dessa conclusão comecei a ver que eu estava simplesmente contrariando os próprios ensinamentos ao ir ao centro com o objetivo de receber, em vez de dar.

Com essa segunda percepção, pude ver que observar nos outros dificuldades que eu mesmo enfrentei (e ainda enfrento) na minha prática é útil tanto para que eu me aprimore no desafio de meditar constantemente quanto para ajudar os demais.

Lembro que na primeira vez que fui ao CEBB eu ficava impressionado como algumas pessoas não moviam nem um fio de cabelo, mesmo quando alguém espirrava, quando um carro buzinava do lado de fora ou quando um mosquito atacava. Ver aquela pessoa ao meu lado fazendo aquilo, mesmo que nas sessões de Introdução à Meditação, foi um exemplo claro de que era possível.

Além disso, a vantagem de meditar em grupo é que, ao final da prática, o orientador pode colocar a experiência em discussão. Nessa hora, as pessoas que participaram relatam suas dificuldades e recebem orientações sobre como melhorar a postura, a concentração, a respiração.

Quando um participante relatou suas dificuldades com a postura e como isso atrapalhava sua concentração, as instrutoras lembraram que precisamos ser mais compassivos com nós mesmos. Afinal, se você está brigando com si próprio, como irá ajudar quem está ao seu redor?

As perguntas que os demais participantes fazem invariavelmente acabam trazendo informações que ajudam a todos.

Por exemplo, se não fossem os comentários pós-prática de ontem eu dificilmente teria encontrado este áudio com uma meditação conduzida pela Jeanne Pilli, grande especialista no assunto e maior autoridade em tradução para o português de textos budistas:

No blog da Jeanne também encontrei uma excelente tradução que pode ajudar bastante quem está apenas iniciando neste desafio: Cinco dicas pra quem está começando a meditar.

Então embora meditar sozinho tenha suas vantagens, sendo essencial para quem quer criar uma prática diária, não dá para deixar de se apoiar na comunidade ao seu redor se você quiser realmente avançar no caminho.

Minha segunda e definitiva conclusão foi a de que neste ano de 2015 procurarei me integrar mais a esta “joia”, tanto para receber dos que estão mais avançados no caminho quanto para ajudar quem está chegando agora.

Antes de concluir, sempre lembro neste desafio que meditação não necessariamente tem que ser budista, nem precisa ser ligada a uma religião. Este é apenas o caminho que faz mais sentido para mim, porém os benefícios da meditação são comprovados independentemente de religião.

Se o budismo lhe interessa, o excelente blog Sobre Budismo mantém uma lista de centros sérios de práticas budistas. Eles estão espalhados por todas as regiões do Brasil. Vá lá.

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Publicado por Walmar Andrade

Criador do Mude.nu, Walmar Andrade é bacharel em Comunicação Social, com extensão em jornalismo on-line (UFPE), MBA em Planejamento, Gestão e Marketing Digital (FECAP-SP) e Master en Comunicación Empresarial (INSA-Barcelona). Escreve sobre comunicação e marketing digital no blog Fator W.

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