Frank Underwood e Dilma Roussef. Dois governantes que vivem uma eterna crise em seus mandatos, a um passo de caírem do poder.

A data de estreia da quarta temporada de House of Cards, 4 de março de 2016, coincidiu com um dos pontos mais agudos da eterna crise do Governo Dilma: a condução coercitiva do ex-presidente Lula.

O estardalhaço midiático foi tamanho que muitos brasileiros consideraram que o enredo da série do Netflix era fichinha perto da realidade brasileira.

A própria produção do seriado entrou na brincadeira, divulgando uma carta de Frank Underwood aos brasileiros:

Carta de Frank Underwood

Noves fora as coincidência, a verdade é que House of Cards chegou a uma encruzilhada. Se as três primeiras temporadas focaram na ascensão de Frank Underwood à Casa Branca, como o enredo pode se desenrolar a partir dali?

A saída mais simples, claro, foi a tentativa de reeleição. Uma campanha eleitoral, por si só, já permite que os roteiristas da série desenvolvam o caráter inescrupuloso do casal de protagonistas de um modo até mais enfático.

Candidatos, afinal, têm muito menos limites do que governantes.

A quarta temporada, no entanto, não se restringe a esta solução fácil. Em 13 episódios, passamos por disputas pela nomeação dentro do próprio partido, briga de casal, atentados, disputa eleitoral e terrorismo.

Frank Underwood enfrenta crise atrás de crise, muitas delas desencadeadas pelos podres que ele mesmo plantou nas três temporadas anteriores. Podres que, como já se tornou tradição na série, só são descobertos pelo quarto poder, pela imprensa.

(Interessante, aliás, a visão da série de mostrar todo o mundo político contaminado e a imprensa, ao menos na era após Zoe Barnes, como uma espécie de bastião da verdade).

Toda a temporada de 2016 pode ser encarada como uma crítica velada ao uso da máquina pública em tentativas de reeleição.

Isso nunca é falado diretamente, mas fica subentendido no esforço que Frank Underwood faz para tentar se reeleger ao mesmo tempo em que governa o país mais poderoso do mundo.

As três partes da quarta temporada de House of Cards

Frank Underwood e Claire

A nova temporada é claramente dividida em três fases.

Na primeira, vemos a continuação direta da temporada anterior, com o afastamento de Claire Underwood.

A primeira-dama é praticamente a protagonista do primeiro terço de episódios, tentando alçar voos solos depois de ser escanteada pelo marido após a conquista da faixa presidencial.

O maior acerto dessa nova temporada é focar quase toda a história no casal de protagonistas, sem perder tempo com histórias paralelas de menor importância como fez na temporada anterior (sim, Doug Stamper, estou olhando para você).

Além dos já conhecidos, temos excelente a adição de LeeAnn Harvey (Neve Campbell) e do casal Conway, os republicanos que enfrentarão os Underwood no terço final.

O segundo terço da temporada é marcado pela loucura de Lucas Goodwin (Sebastian Arcelus), um ponto de virada que acaba causando a reaproximação de Frank e Claire.

Tal loucura permite, inclusive, que vejamos novamente na tela personagens que deixaram saudade, como Zoe Barnes e Peter Russo. Sem falar no breve retorno do excelente Viktor Petrov.

Aqui vale a pena comentar que, se a separação dos Underwood era um tema interessante, não dá para negar que quando os dois voltam a unir forças a série parece retomar todo o seu potencial.

Com isso, o terço final da temporada leva a história ao auge. O vale-tudo eleitoral entra em cena, sem se preocupar com quem saia machucado pelo meio do caminho, sejam aliados ou inimigos. Ou mesmo o povo, americano ou não.

Os pontos negativos da história de Claire e Frank Underwood

Frank Underwood bonecos

Nem tudo é perfeito na quarta temporada de House of Cards.

Um ponto que incomoda, por exemplo, é a troca de nomes de figuras conhecidas.

Para criticar o poder que a tecnologia tem para invadir a privacidade das pessoas, por exemplo, House of Cards preferiu criar uma empresa fictícia mostrada como um “concorrente do Google”.

Para criticar o Estado Islâmico (ISIS), a série preferiu criar uma organização fictícia chamada Islamic Caliphate Organization (ICO).

Talvez tenha faltado aqui um pouco mais de coragem para inserir os personagens reais na história fictícia, gerando críticas mais contundentes, como eles mesmo já fizeram com o Instagram, o Twitter ou até o Pussy Riot.

Outro ponto que poderia ser melhorado é o equilíbrio na quebra da quarta parede.

Como cada episódio é dirigido por um diretor diferente, alguns deixam essa característica de Frank Underwood de lado, enquanto outros até abusam do recurso. Em um dos episódios, em um momento Cristopher Nolan, Frank explica direto para o espectador o plano que vai se desenrolar. Desnecessário.

Ainda neste tópico, você pode se surpreender quando, em um momento crucial, outro personagem também olhar discretamente para você, como se soubesse que o telespectador está ali. Fique atento para não deixar passar.

Em resumo, House of Cards continua sendo um dos melhores produtos já feitos “para televisão”, cujo histórico provavelmente chegará a ser comparado ao dos Sopranos em um futuro próximo.

E se havia dúvidas sobre o futuro da série após a chegada do Casal Underwood à presidência, os acontecimentos da quarta temporada deixam claro que há pano para manga para, no mínimo, mais duas temporadas.

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Publicado por Walmar Andrade

Criador do Mude.nu, Walmar Andrade é bacharel em Comunicação Social, com extensão em jornalismo on-line (UFPE), MBA em Planejamento, Gestão e Marketing Digital (FECAP-SP) e Master en Comunicación Empresarial (INSA-Barcelona). Escreve sobre comunicação e marketing digital no blog Fator W.

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