A cada segundo tomamos várias decisões em nossas vidas. Mas você sabe como tomar decisões realmente boas?

Às vezes são decisões simples, rotineiras, voltadas para o nosso dia-a-dia.

Vou me levantar agora para pegar um copo com água ou continuo lendo esse texto até o final? Sigo em frente com a leitura ou olho se há novas mensagens no meu celular?

São centenas de decisões desse tipo a cada minuto de nossas vidas, e elas são tomadas de forma automática, intuitiva, baseada nas nossas experiências anteriores.

Outras decisões são mais complexas e possuem maior potencial de causar impactos sobre nossas vidas.

Que curso vou fazer na faculdade? Faço um mestrado ou doutorado? Vou arriscar minha vida no exterior ou aprofundo minha carreira por aqui mesmo?

Algumas pessoas deixam essas decisões importantes no piloto automático, fugindo da responsabilidade sobre suas próprias vidas.

Outras pessoas tomam essas decisões importantes de forma “totalmente” racional, buscando utilizar todas as informações disponíveis, ponderar todos os prós e contras face aos impactos que cada alternativa pode gerar. Se você toma suas decisões assim, é possível que já tenha percebido que esse modelo 100% racional é impossível…

O mito da racionalidade

Como tomar decisões

Decisões racionais seriam tomadas com base em todas as informações existentes.

Com base nelas, o indivíduo teria um processo racional perfeito para avaliar as opções.

Para que seja perfeita, sua racionalidade teria que envolver o conhecimento sobre todas as opções de decisão, assim como as consequências futuras de cada uma delas.

Assim, conhecendo com clareza seus próprios objetivos, seria capaz de decidir qual a melhor opção (escolha ótima e maximizadora) dentre as disponíveis.

Talvez você já tenha notado alguns problemas na racionalidade, agora que comecei a esclarecer o modelo…

Vamos ver alguns desses problemas:

1. É impossível obter todas as informações sobre seu problema/oportunidade

Na hora de escolher uma pós-graduação, é impossível saber ao certo como essa oportunidade irá gerar impactos sobre sua vida.

O mesmo acontece sobre a possibilidade de morar no exterior: é realmente uma oportunidade? Talvez sim, talvez não…

2. É impossível obter todas as informações sobre as alternativas e seus impactos

Fazer o mestrado na UFRJ é melhor ou pior do que na USP? Se eu resolver fazer na UFPE, quais os impactos futuros sobre minha carreira, em relação às outras opções?

Se eu optar por uma carreira em Trondheim, Noruega, o que eu estarei fazendo em dez anos? E se eu optar por trabalhar em Luanda, Angola? Impossível saber…

3. Nossos objetivos não são claros

É normal que achemos que sabemos o que queremos, mas quando chegamos lá percebemos que não era bem aquilo, certo?

Isso acontece porque é muito difícil esclarecermos os nossos próprios objetivos em termos de satisfação pessoal.

É mais fácil querer “fazer um mestrado”, porque queremos “crescer na carreira”, do que “fazer um mestrado em administração na UFPE para ocupar um cargo de gerente de finanças na Petrobras, morando na Noruega, daqui há 2 anos”.

Isso acontece, principalmente, porque as consequências de nossas decisões são desconhecidas (como mencionado antes). Com isso os objetivos, por mais específicos que sejam (exemplo: “terminar o mestrado em administração na USP daqui há 2 anos”) são muito pontuais, não compreendendo todos os impactos possíveis.

4. O ambiente é turbulento

Se você ainda acha que controla suas decisões, possui as informações e sabe exatamente o que quer, agora tudo vai cair por terra: o ambiente muda o tempo todo, e suas opções passadas deixam de fazer sentido.

Além disso, seus próprios objetivos mudam de um dia para o outro, imagine durante toda a vida (prazo de impacto das decisões importantes).

5. É impossível processar todas as informações com um raciocínio perfeito

O pior de tudo: se você tem todas as informações; sabe exatamente o risco de cada alternativa, e onde elas podem dar; conhece plenamente seus objetivos; e acredita que o ambiente não muda; tem um problema do qual não pode fugir: você não é um computador.

Entre em um restaurante que você nunca foi, peça o cardápio, e tente escolher “O prato que MAIS irá lhe dar prazer naquela refeição”.

Há carnes, peixes, petiscos, grelhados, ensopados, massas…

Você só pode escolher uma opção e, necessariamente, ela será a melhor de todas… Será que é possível?

“Eu nem conheço todas as opções”, você pode estar pensando.

O pior é que: mesmo que conhecesse, não teria como escolher a melhor.

Você poderia pedir uma amostra de todos os 50 pratos do restaurante, prová-los todos, para depois pedir o melhor. O problema é que, quanto maior a fome, melhor o prato… a racionalidade não acompanha.

Se a racionalidade das decisões humanas é um mito, como devo tomar minhas decisões?

Há dois modelos muito úteis para isso: a racionalidade limitada e o uso da intuição.

Tomando decisões com o modelo da racionalidade limitada

Decisões

Em ambientes menos turbulentos, recomendo a tomada de decisão racional, mas não a racionalidade plena.

Por mais surpreendente que possa ser, a racionalidade limitada é muito melhor.

Ela pressupõe que você não possui todas as informações, não conhece todas as alternativas e impactos, seus objetivos não são tão claros assim, e você não consegue decidir perfeitamente (nem na escolha de um prato em um restaurante)!

Tomar decisões com base na racionalidade limitada consiste em buscar decisões satisfatórias, e não decisões ótimas. Sabe o que isso siginifica?

Que você estabelece critérios para escolher entre as alternativas disponíveis, e escolhe uma alternativa que satisfaça seus critérios.

Na escolha sobre que contrato de trabalho assinar, você estabelece o que importa para você.

Por exemplo, vou trabalhar em uma função de que costumo gostar? A empresa em que vou trabalhar possui imagem ética no mercado? O local de trabalho passa a impressão de ser bom?

Respondendo sim a essas perguntas, você escolhe sua alternativa. Se der empate, pense em mais um critério importante, até conseguir escolher a alternativa que satisfaça os critérios importantes para você.

As consequências de cada escolha, se realmente serão as melhores, você nunca saberá, mas ficará satisfeito.

Usando o exemplo do restaurante: quero comer carne, grelhada, com salada. Pergunto ao garçom qual a opção “carna, grelhada, com salada” que mais sai. Tendo a ficar satisfeito.

Tomando decisões com o uso do modelo intuitivo

Decisões com intuição

Quando vou tomar decisões de nível muito mais difícil, ou quando o ambiente é muito turbulento, tomo decisões de forma mais intuitiva, combinando com a racionalidade limitada – pois é isso que é recomendado.

A intuição é aquele pulso persistente que te diz para escolher uma alternativa específica (e não o impulso de fazer alguma coisa, por reação emocional).

Trata-se do processo natural de tomada de decisão, que considera toda a sua experiência de vida de maneira integrada. Considera ainda os seus verdadeiros objetivos, mesmo que você os desconheça.

Com base nisso, sua mente decide sem que sua racionalidade precise entrar em ação. Não há explicações, mas algo te move em uma direção.

Isso não quer dizer que a decisão será irracional. Para ser irracional, seria necessário um processo racional pleno (que não existe) apontando para uma alternativa, enquanto você decide que essa é a alternativa que não deve ser escolhida.

Ser irracional é ser contra a racionalidade. Não tem nada a ver com o uso da intuição.

Quanto mais experiência de vida você tiver, melhores serão suas decisões intuitivas. Elas vão se basear em tudo o que você já viveu e nas consequências (positivas e negativas) de cada escolha que fez.

No ambiente de trabalho, é comum que diretores e presidentes tomem decisões com base em suas intuições, enquanto analistas e técnicos tomem decisões baseadas em maior grau de racionalidade.

Como combinar a intuição com a racionalidade (ainda que limitada)?

Decisões com base na intuição

Certamente existem várias maneiras de fazer isso.

Eu tenho a minha: estabeleço os critérios para guiar minha decisão, mas não sigo em frente se alguma coisa dentro de mim disser que não devo.

Em outros momentos, prefiro o contrário: deixo minha intuição guiar minha decisão, até o ponto em que olho a escolha com base em critérios racionais, para ver se ela é satisfatória.

Pessoalmente, quanto mais difícil for, mais acho importante a intuição. Quando uma solução satisfatória parece impossível, prefiro o uso da intuição.

Um grave problema pode emergir: como saber se é intuição mesmo, ou se é simplesmente medo, excitação emocional ou impulso?

É impossível ter certeza, mas é fundamental olhar para dentro de si e tentar se conhecer cada vez mais para saber diferenciar uma coisa da outra.

Tomo minhas decisões dessa forma. Às vezes dá certo. Às vezes dá errado. Mas foi assim que construí minha vida, saí de enrascadas e aproveitei oportunidades que me trouxeram até aqui.

O mais importante: estou muito satisfeito com as decisões que tomei, mesmo quando elas não chegam exatamente onde eu imaginava.

Não imaginei que me tornaria professor, mas adoro ajudar as pessoas. Não pensei que passaria em concurso público (não pensava nem em prestar concursos!), mas minha trajetória me trouxe ao Senado Federal.

Me conta como você vai colocar isso em prática!

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Publicado por Carlos Xavier

Carlos Xavier adora desafios e vive encontrando espaço em sua vida corrida para realizá-los. Seja emagrecer 10kg em três meses, trabalhar no exterior ou aprender windsurf, encara e enfrenta sem medo seus desafios. Lifehacker por natureza.

9 Comentários

  1. Parabéns pelo texto! =)

    Só uma dica: “daqui a…” em vez de “daqui há”

    Abraço!

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  2. Uma coisa é certa, se não decidirmos, independentemente dos critérios, alguém decidirá por nós. Alguém ou “alguns”, conhecidos ou não. Ademais, essa questão de fazer escolhas e tomar decisões me remete ao conceito de “serendipity” (creio que se escreve assim). Ou seja, quando nos lançamos à caça de um tesouro específico, ainda que não o encontremos, outras riquezas encontraremos pelo caminho. Riquezas estas que jamais encontraríamos se houvéssemos permanecido totalmente à deriva….

    Conjecturas….

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  3. Muito bom! Obrigado!

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  4. Ótimo texto.

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  5. Que texto incrível!!!

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  6. Oi Xavier, como vai?
    De fato um artigo que nos convida a refletir antes de iniciar qualquer caminho em relação ao futuro.
    Normalmente, quando tenho de tomar uma grande decisão, penso muito, avalio os prós e os contras, imagino o que poderá acontecer a curto e a médio prazo e, só após essas reflexões é que me decido por aquela que se afigurar mais com os objetivos a alcançar. Porém, uma coisa é certa: por mais que pensemos que estamos a escolher o melhor caminho, nunca poderemos saber pois não podemos seguir dois ou mais para depois compararmos.
    Portanto, o que eu penso é também que, se queremos tomar decisões, teremos de fazê-lo pensando que, por mais que pensemos que tomámos a melhor decisão, é impossível saber.
    Muito bom seu artigo tal como todos os que tenho tempo de ler mas nem sempre tenho tempo para responder.
    Sempre que tenho um tempinho dou uma olhada no vosso site que é um dos melhores que conheço. Mas sei que existem outros blogs com assuntos muito interessantes. Também gosto muito dos artigos do André Valongueiro.
    Desejo-lhe uma boa semana.

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  7. porque não existe mais a página com os desafios no site? :(

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    • Giovanna, porque pouca gente usava e trazia um custo alto para o site, com o qual não temos mais condições de arcar no momento :(

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